domingo, 20 de setembro de 2009

Cartaz com Poema de D. Pedro sobre o Latifúndio

"Não tão conhecido como mereceria, há no Brasil um santo e herói:
Pedro María Casaldáliga.
Santo por sua fidelidade radical (no sentido etimológico de ir às raízes) ao Evangelho, e herói pelos riscos de vida enfrentados e as adversidades sofridas. "

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Confissões do Latifúndio - Pedro Casaldáliga






Confissões do Latinfúndio

Pedro Casaldáliga
(Bispo Jubilado de São Felix do Araguaia, MT)


Por onde passei,
plantei
a cerca farpada,
plantei a queimada.


Por onde passei,
plantei
a morte matada.


Por onde passei,
matei
a tribo calada,
a roça suada,
a terra esperada...


Por onde passei,
tendo tudo em lei,
eu plantei o nada.




sexta-feira, 11 de setembro de 2009

11 de Setembro uma homenagem a Allende e ao Povo do Chile





Para homenahear a ALLENDE E O POVO DO CHILE.


este belo poema de Mario Benedetti:

"ALLENDE"


Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla,
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que congregar todos los odios
y además los aviones y los tanques,
para batir al hombre de la paz
tuvieron que bombardearlo hacerlo llama,
porque el hombre de la paz era una fortaleza



Para matar al hombre de la paz
tuvieron que desatar la guerra turbia,
para vencer al hombre de la paz
y acallar su voz modesta y taladrante
tuvieron que empujar el terror hasta el abismo
y matar mas para seguir matando,
para batir al hombre de la paz
tuvieron que asesinarlo muchas veces
porque el hombre de la paz era una fortaleza,


Para matar al hombre de la paz
tuvieron que imaginar que era una tropa,
una armada, una hueste, una brigada,
tuvieron que creer que era otro ejercito,
pero el hombre de la paz era tan solo un pueblo
y tenia en sus manos un fusil y un mandato
y eran necesarios mas tanques mas rencores
mas bombas mas aviones mas oprobios
porque el hombre de la paz era una fortaleza


Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla,
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que afiliarse siempre a la muerte
matar y matar mas para seguir matando
y condenarse a la blindada soledad,
para matar al hombre que era un pueblo
tuvieron que quedarse sin el pueblo.
.
.
11 de setembro de 1973


Compatriotas: Esta será seguramente a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A aviação bombardeou as antenas de Radio Portales e Radio Corporación. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção, e elas serão o castigo moral para os que traíram o juramento feito: soldados de Chile, comandantes-em-chefe titulares e mais o almirante Merino, que se autodesignou, e o señor Mendoza, esse general rasteiro, que ontem me manifestara sua fidelidade e lealdade ao governo.


"Frente a estes fatos, só me cabe dizer aos trabalhadores: não vou renunciar!"Colocado neste transe histórico, pagarei com minha vida a lealdade do povo, e digo-lhes que tenho certeza que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser apagada definitivamente. Eles têm a força, mas não se detêm processos sociais pelo crime e pela força.


A História é nossa, ela é feita pelos povos."Me dirijo ao homem chileno, operário, camponês, intelectual, àqueles que serão perseguidos porque em nosso país o fascismo já se faz presente há algum tempo em atentados terroristas, sabotagens de estradas de ferro e pontes, oleodutos e gasodutos."Frente ao silêncio dos que tinham a obrigação – interrupção momentânea da transmissão de Radio Magallanes - ...a que estavam submetidos.


A História os julgará."Seguramente, Radio Magallanes será calada e o metal tranqüilo da minha voz não chegará mais a vocês..."Não importa ... Não importa, vocês seguirão me ouvindo, estarei sempre junto de vocês, pelo menos minha lembrança será de um homem digno, leal à lealdade dos trabalhadores."O povo deve se defender, mas não se sacrificar. Não deve deixar-se arrasar nem crivar de balas, mas tampouco pode se deixar humilhar.


"Trabalhadores da minha pátria: tenho fé no Chile e no seu destino. Este momento cinzento e amargo, onde a traição pretende se impor, será superado. Sigam sabendo que muito mais cedo do que tarde de novo se abrirão as grandes avenidas por onde passará o homem [livre] digno que quer construir uma sociedade melhor..."


Viva Chile, viva o povo, vivam os trabalhadores... Estas são minhas últimas palavras ... Tenho certeza de que meu sacrifício não será em vão, tenho certeza de que pelo menos será uma lição moral que castigará a felonia, a covardia e a traição..."
Fonte: bahcaroco
Foto: Getty

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Assentamento do MST no Paraná produz e exporta cachaça para a Europa


Olá querida Nédier!
Tudo bem com você? Espero que sim
Estou te enviando uma reportagem fresquinha sobre a COPAVI.
Um forte abraço e se possível divulgue, o site é http://g1.globo.com/

Beijos
com carinho
Dani
A linda Dani
Queridos amigos,
Recebi o e-mail acima da Daniela Calza, uma filha no meu coração.
A família Calza é a minha família no MST.
Brincando com duas das irmãs da Dani, que dormiram juntas para me ceder uma cama.
Almoçando com os Calza

A Copavi/assentamento/cooperativa é o Brasil dos meus sonhos.
A Copavi fica em Paranacity, onde vou quando posso para matar as saudades e aprender lições de civilidade, trabalho e coragem.
A Dani me avisou que a "minha" Copavi foi assunto de uma reportagem no Portal de Notícias da Globo, mas não me contou que as fotos da reportagem eram dela.
Estou muito orgulhosa da minha gente, da minha Dani e gostaria que vocês lessem a reportagem e entendessem o porquê do meu orgulho.
Nédier


02/09/09 - 07h30 - Atualizado em 02/09/09 - 07h30
Assentamento do MST no Paraná produz e exporta cachaça para a Europa

Cooperativa fatura até R$ 50 mil por ano só com a venda do produto.Comunidade é considerada modelo pelo Incra.

Luciana Rossetto Do G1, em São Paulo
.
Assentamento fatura entre R$ 40 mil e R$ 50 mil só com venda de cachaça
(Foto: Daniela Calza/Divulgação/MST)

Acabou o tempo em que o único objetivo dos sem-terra era o cultivo destinado somente à subsistência. Hoje, de olho no mercado, famílias de um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) investem na produção agroecológica e exploram até potencial de exportação de seus produtos.
É o caso da cachaça da marca Camponesa, que é produzida no Assentamento Santa Maria, em Paranacity (PR), onde vivem 21 famílias – cerca de 70 pessoas - que formam a Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória Ltda (Copavi). Parte da produção anual de 10 mil litros da cachaça é exportada para a França, além de ser vendida também em todo o Brasil.
Valmir Stronzake, membro do Conselho Administrativo do Assentamento Santa Maria, explica que a fabricação de cachaça começou em meados de 2002 e foi legalizada em 2005. Só com a cachaça, o assentamento fatura em média entre R$ 40 mil e R$ 50 mil ao ano.
“Primeiro, nós começamos a fazer açúcar mascavo, mas as famílias de alguns trabalhadores daqui tiveram experiência em produzir cachaça no passado, então nós adaptamos um alambique e depois fomos fazendo melhorias aos poucos”, diz Stronzake.
Por cada garrafa de cachaça vendida no Brasil, o assentamento recebe R$ 4,50. O produto para exportação rende R$ 6,00. “Esse é o valor que recebemos sem impostos, que gira em torno de 40% a mais no preço. O imposto é muito alto.”

Cada família tem sua própria casa, com energia elétrica e água encanada
(Foto: Daniela Calza/Divulgação/MST)

Stronzake conta que a Copavi também é dona da marca Liberação, que é autorizada somente para exportação. Eles pararam de produzir essa cachaça, que teve a produção vendida apenas duas vezes para a Espanha. “Vendíamos para uma associação, mas já em 2007 eles estavam com dificuldades financeiras e o problema se agravou com a crise no ano passado. No ano que vem, vamos voltar a conversar. Talvez a gente volte a vender”, afirma.

Além da cachaça, a Copavi vende o açúcar mascavo e o melado de cana para outras regiões do país. “Para vendermos em outros lugares, nós entramos em contato com compradores de açúcar mascavo por telefone, pela internet. Participamos de feiras para fazer divulgação e, assim, vamos aumentando o número de compradores.”

A cooperativa produz cerca de 600 litros de leite por dia, que é utilizado também para a fabricação de iogurtes. Segundo Stronzake, entre 13% e 20% da produção são destinados ao consumo interno e o resto é distribuído para comerciantes da região de Paranacity.

O grupo também produz uma variedade grande de hortaliças e legumes, mas a maior parte é usada na alimentação das próprias famílias.
De acordo com o no Paraná, assentamento Santa Maria é considerado modelo
(Foto: Daniela Calza/Divulgação/MST)


Todas as hortaliças e legumes cultivados no assentamento são produzidos de modo agroecológico, sem uso de adubos químicos, agrotóxicos ou transgênicos. Apenas a produção de leite não é totalmente agroecológica, porque são usados medicamentos feitos em laboratório para tratar o gado.
Assentamento modelo
O assentamento Santa Maria foi criado há 16 anos e tem 230 hectares. Do total, 150 hectares são usados para a produção agropecuária. O resto abriga mata nativa e as moradias.
As famílias do assentamento Santa Maria dividem mais do que apenas o trabalho e a expectativa em relação às vendas dos produtos. Todo o modo de vida das famílias no local tem como base fundamental a produção coletiva, o que faz o assentamento ser considerado modelo, de acordo com Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Paraná.
O faturamento total de cada família que vive no assentamento Santa Maria gira em torno de R$ 900 por mês. Isso depois de descontado o que cada família consome e também considerada a contribuição de cada uma na produção.
“Como é um sistema coletivo, tudo o que produzimos tem um custo, então, após a venda, temos que pagar esses custos. Outra parte vai para pagar os financiamentos do Governo Federal e investimentos nos meios de produção. O que sobra, distribuímos de acordo com quanto cada família trabalhou para ajudar a produzir”, diz

Cada família tem sua própria casa, com energia elétrica e água encanada. Mas o diferencial é a cozinha comunitária, onde de segunda a sexta-feira são servidos café da manhã e almoço. “Nós implantamos uma cozinha comunitária depois que percebemos que as mulheres passavam muito tempo em casa para preparar as refeições. Elas também queriam participar da vida produtiva e das decisões da cooperativa”, diz.
Atualmente, uma mulher e um homem trabalham na cozinha.“Foi bom para padronizarmos a alimentação das pessoas que vivem no assentamento com uma refeição balanceada e de qualidade. Além disso, ajudamos as mulheres, que agora não trabalham tanto em casa e têm mais tempo para contribuírem nas atividades do assentamento.Com o tempo, fomos melhorando. Agora, já temos até uma padaria”.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Definições

Eu e minha neta Clara, em Valência/Espanha
Netos: É quando Deus tem pena dos avós e manda anjos para alegrá-los



Algumas definições belíssimas retiradas do livro
“ O homem que veio da sombra"
de Luiz Gonzaga Pinheiro
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Amor ao próximo: É quando o estranho passa a ser o amigo que ainda não abraçamos.

Adeus: É quando o coração que parte deixa a metade com quem fica.

Amigo: É alguém que fica para ajudar quando todo mundo se afasta.

Ciúme: É quando o coração fica apertado porque não confia em si mesmo.
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Caridade: É quando a gente está com fome, só tem uma bolacha e reparte.
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Carinho: É quando a gente não encontra nenhuma palavra para expressar o que sente e fala com as mãos, colocando o afago em cada dedo
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Cordialidade: É quando amamos muito uma pessoa e tratamos todo mundo da maneira que a tratamos.
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Doutrinação: É quando a gente conversa com o Espírito colocando o coração em cada palavra.
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Entendimento: É quando um velhinho caminha devagar na nossa frente e a gente estando apressado não reclama.

Evolução: É quando a gente está lá na frente e sente vontade de buscar quem ficou para trás.

Fé: É quando a gente diz que vai escalar um Everest e o coração já o considera feito.

Filhos: É quando Deus entrega uma jóia em nossa mão e recomenda cuidá-la

Fome: É quando o estômago manda um pedido para a boca e ela silencia.

Inimizade: É quando a gente empurra a linha do afeto para bem distante.

Inveja: É quando a gente ainda não descobriu que pode ser mais e melhor do que o outro.

Lágrima: É quando o coração pede aos olhos que falem por ele.

Lealdade: É quando a gente prefere morrer que trair a quem ama.

Mágoa: É um espinho que a gente coloca no coração e se esquece de retirar.

Maldade: É quando arrancamos as asas do anjo que deveríamos ser.

Morte: Quer dizer viagem, transferência ou qualquer coisa com cheiro de eternidade.

Obsessor: É quando o Espírito adoece,manda embora a compaixão e convida a vingança para morar com ele.

Ódio: É quando plantamos trigo o ano todo e estando os pendões maduros a gente queima tudo em um dia.

Orgulho: É quando a gente é uma formiga e quer convencer os outros de que é um elefante.

Paz: É o prêmio de quem cumpre honestamente o dever.

Perdão: É uma alegria que a gente se dá e que pensava que jamais a teria.

Perfume: É quando mesmo de olhos fechados a gente reconhece quem nos faz feliz.

Pessimismo: É quando a gente perde a capacidade de ver em cores.

Preguiça: É quando entra vírus na coragem e ela adoece.

Raiva: É quando colocamos uma muralha no caminho da paz.

Saudade: É estando longe, sentir vontade de voar, e estando perto, querer parar o tempo.

Simplicidade: É o comportamento de quem começa a ser sábio.

Sinceridade: É quando nos expressamos como se o outro estivesse do outro lado do espelho.

Solidão: É quando estamos cercado por pessoas, mas o coração não vê ninguém por perto.

Supérfluo: É quando a nossa sede precisa de um gole de água e a gente pede um rio inteiro.

Ternura: É quando alguém nos olha e os olhos brilham como duas estrelas.

Vaidade: É quando a gente abdica da nossa essência por outra, geralmente pior.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

"Chega de massacrar o povo Guarani!"


"Chega de massacrar o povo Guarani!"
por Junior Bittencourt
Dourados Informa 31/08/2009 - 08:10 h
A criação da reserva indígena pelo Estado Brasileiro, condicionando os guaranis a viverem confinados num território inventado, cercado de um lado pela cidade moderna de Dourados e de outra pela lavoura latifundiária tecnificada, colocou o povo indígena a viver num pequeno espaço, sendo sua morada e simultaneamente sua prisão (SANTOS, 2000). Dentro deste território prisão, cercado por muralhas invisíveis que sufoca-os, o povo guarani tenta resistir, buscando meios de se libertar do confinamento e encontrar a liberdade de criar e recriar seus próprio território de forma a deixar de ser submisso e ignorado pelo território moderno civilizado.
O território prisão condiciona os índios a sobreviver como se estivessem trancafiados numa cela de penitenciaria, onde são desterritorializados de seus territórios originais, recebendo apenas água e comida racionada para que continuem respirando. Nesta relação prisional alguns se suicidam, outros enlouquecem, alguns se tornam ainda mais violentos, assimilando bem os horrores da prisão, mas tem aqueles que lutam pela liberdade apelando para garantir o seu direito a fugir que a constituição lhe garante se conseguir, sem correr o risco de aumento da pena. Sendo assim passam anos cavando túneis a unha feito animais que se refugiam em tocas buscando garantir sua existencial reprodução, outros estão anos à serrar as grades que os enjaulam condenando-os a irracionalidade animalesca. Assim estão os guaranis, cercados por uma muralha invisível que os aprisionam e também lhes convidam a resistir para existir, dentro da cela que é a reserva, o conflito é permanente, e a criação de alternativas transcorrem o lugar do cotidiano onde alguns reafirmam sua existência por meio do suicídio (BAUMAN, 2005), outros enlouquecem embebedados de angústia debruçados sobre a muralha invisível que o separa de sua existência original, outros tentam fazer valer os seus direitos de continuar existindo assegurado pela constituição federal do Estado Brasileiro, buscam fugir para outro lugar cavando buracos para enterrar seus mortos e também para continuar semeando sua cultura mesmo na condição extraterritorial original, serra-se as grades da prisão para não aceitar ser desterritorializado (HAESBAERT, 2004). Atravessa a fronteira que os condenou, e dentro do território moderno ele ocupa a Fundação Nacional do Índio, o aparelho do Estado Moderno Brasileiro que organizou a prisão do povo indígena, e então reclama a liberdade de não apenas respirar, mas o reconhecimento de seu território e da terra como parte inegociável, inalienável da vida (BRAND,1993).
Uma das contradições do Estado de Direito é a garantia de tratamento igual a todos bem como seus direitos, sendo a terra antes de mais nada, tendo por obrigação garantir primeiro o interesse social coletivo para depois satisfazer o interesse individual privado, e que o racismo é crime, defrontando com o pó da fronteira que se levanta como uma nuvem de ilegalidade sócio-cultural, nas escolas da cidade os jovens indígenas tem se cansado não apenas pela longa distância percorrida, mas sim das atitudes racistas reacionárias de colegas e professores não-indigenas, ocorrendo em alguns casos profunda tristezas e revoltas levando os jovens índios tirarem a própria vida por meio dos cotidianos suicídios sobre a fronteira. O número de suicídios entre os Guaranis Kaiwá em Mato Grosso do Sul é entorno de 50 a 60 por ano de acordo com o (CIMI, 2007), entre uma população de 40 mil índios.
Com o vigoramento da Constituição de 1988 é criado mecanismos de legitimação aos territórios indígenas e quilombolas, garantindo que toda terra remanescente de terra indígena ou quilombola deve ter a partir de então seus títulos de posse automaticamente anulados. Mas tudo isso geram conflitos e se levantam fortes oposições entre os operadores do direito e a classe política que sempre estiveram a favor de grupos econômicos específicos. Desta feita a ideologia dominante, tenta plantar no ideário nacional que a luta por demarcação de terras vai barrar o progresso e a produção de alimentos, e afirma que são povos perigosos, e um grande problema para a sociedade. Estes discursos visam debater e logo abrirem suspeitas sobre demarcações de territórios. Suspeitas apresentadas como ameaças ao desenvolvimento. Isso cria uma crise institucional, e graves suspeitas sobre as identidades culturais nacionais. Para o mau ou para o bem do povo “civilizado” o território indígena continua existindo, perderam o controle de suas terras, mas sua cultura permanece acesa sobre o pó da fronteira na luta por seu território. Que a verdadeira justiça seja feita em breve.
*Junior Bittencourt - Geógrafo e acadêmico de Economia da UFGD.

Nos caminhos do genocídio e da esperança

Nos caminhos do genocídio e da esperança

Cone sul do Mato Grosso do Sul. Fronteira com o Paraguai. Território tradicional Guarani. Visita as comunidades Kaiowá Guarani.com a presença de Cooperadores internacionais.


Primeira estação
Iniciamos a viagem por Nhanderu Marangatu. São mais de 900 pessoas espremidas em 124 hectares. Um professor da comunidade assim se expressa “descrevemos isso porque denunciamos ameaças de morte, espancamento assassinato, abuso sexual, estupros, mas nunca fomos atendidos pela Funai e pelo Ministério Publico Federal”. Nesta comunidade foram assassinados na luta pela terra, Marçal Tupã’i e Dorvalina. Os assassinos não foram punidos. A terra de 9.300 hectares está homologada desde 2005. Logo depois uma ação dos fazendeiros foi liminarmente aceita pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, suspendendo os efeitos. Até hoje a ação não foi julgada. Sob permanente vigilância e ameaças, os indígenas vêem o pouco da mata que ainda existe sendo rapidamente destruída, e eles aí confinados, até muitas vezes sem lenha para fazer fogo e sem ter para onde ir. Mais de uma centena de crianças está sem documentos e por isso fora da escola. Dizem que os índios são do Paraguai, quando existe historicamente a terra desses grupos familiares num e outro lado da fronteira. Recentemente delegação da comunidade esteve com o Ministro Cezar Peluso, do Supremo Tribunal Federal, relator do processo, solicitando mais uma vez urgência no julgamento do processo. A resposta é de que vai providenciar isso.

Segunda estação
A comunidade com a marca mais profunda do genocídio e sofrimento na luta pela terra é Kurusu Ambá, no município mais violento do país – Coronel Sapucaia. Ali fomos recebidos pela comunidade mobilizada em ritual de indignação e esperança. O ritual de recepção foi um desses fenômenos raros de se acreditar. Parece impossível um grupo humano submetido a tamanha crueldade tenha tanta energia para saudar a vida e acreditar em dias melhores, lutando. Ter a certeza de que a terra de Kurusu Ambá, voltará a ser a sua terra sem males.
Dos aliados de outros países que os estavam visitando, apenas pediram que falassem ao mundo a verdade sobre o que se passa na comunidade de Kurusu Ambá. As ameaças continuam e a qualquer pode ter mais vítimas. Falam emocionados dos três líderes que foram assassinados, dos que foram presos, dos que foram baleados, das crianças que morreram de fome. Um cartaz de papelão de caixa dizia “ 22 ANO DE PACIENCIA E TRES VITIMA

Ao final das falas foi novamente proferida a palavra do líder assassinado Ortiz “A luta não vai parar enquanto tiver um Kaiowá Guarani em pé”.
São aproximadamente 200 pessoas sob as lonas pretas à beira da estrada e fim da paciência.

Terceira estação
Amabai é uma das primeiras terras Kaiowá Guarani reservadas a eles no início do século passado. A pequena porção de terra foi sendo expropriada pela expansão das fazendas e da cidade ao redor. Hoje são quase 8 mil pessoas em menos de 2 mil hectares. Não fica difícil entender porque é uma das áreas de maior índice de violência na região e no país. Além das graves conseqüências do confinamento, a região é marcada e precionada pelo narcotráfico, alcoolismo, prostituição, trabalho escravo...e outros males sistêmicos.
Ali fomos visitar o acampamento do Nisio, do tekoha Guaiviry. Recentemente Perderam sua grande mãe e líder religiosa Odulia. Logo antes de morrer disse para registrarem sua fala “Quero tekoha Guaiviry para os meus filhos ocupem o tekoha em meu lugar. Depois do Aty Guasu espero que essa terra seja demarcada para meus filhos e comadre...A minha filha fica em meu lugar para não terminar o meu broto. Não quero que a cultura não indígena entre no tekoha Guaiviry. Depois quero que meus filhos me levem para onde está meu irmão” (Odulia Mendes, texto manuscrito)

Quarta estação

Final de dia, nas trilhas do sofrimento e da esperança Kaiowá Guarani. O vereador Otoniel e o capitão da aldeia de Caarapó – Te Ykue, nos introduzem em outros campos não menos minados e difíceis. A participação na política partidária e o trabalho de plantio e corte de cana de açúcar. Apesar de todos os problemas enfrentados na função de representante da comunidade na câmara municipal, essa tem sido uma experiência construída com muito debate e consciência pela comunidade. Ele é um dos oito vereadores indígenas Kaiowá Guarani da região.
Também procura refletir sobre esse sobre o século passado, quando praticamente se iniciou o processo de forte impacto, muitas mortes, num processo genocida que continua até hoje. Procurou refletir o processo desde a escravidão livre da extração da erva-mate até o trabalho escravo hoje nas usinas de cana de açúcar. Só da aldeia de Tei Ykue saem em torno de dez ônibus de trabalhadores Kaiowá Guarani para as usinas. São em torno de 700 trabalhadores indígenas só desta aldeia. No total, conforme o Ministério do Trabalho, são mais de 13 mil indígenas trabalhando no plantio e corte da cana, na região. Procuram mostrar o forte impacto desestruturador dos laços sociais, familiares, que traz esse trabalho de meses fora da aldeia. É praticamente o único trabalho que lhes resta. E mesmo assim com os dias contados, pois está em curso um rápido processo de mecanização de todo o processo da cana. Daí a urgência do reconhecimento das terras para que não se agrave ainda mais a situação de dependência, mendicância, violência e fome.

Quinta estação
Próximo a Dourados, uma das situações mais cruéis a que está submetida uma comunidade Kaiowá Guarani hoje, no Mato Grosso do Sul. A terra de Passo Piraju foi retomada há um quasee 10 anos. Foi um tempo de conflitos e ameaças constantes por parte dos fazendeiros da região, que a todo custo querem ver os índios longe daí. Eles estão confinados a 40 hectares por um Termo de Ajustamento de Conduta. Porém nos últimos três anos, após um conflito em que morreram dois policiais, eles estão submetidos a um permanente bombardeio de prisões,pressões, armações e ameaças inimagináveis. Em conseqüência disso hoje se encontram reduzidos a menos da metade das famílias que havia anos passados. Alguns se encontram no presídio de segurança máxima de Dourados. Outros cumprem prisão na aldeia. A intenção clara é de vingança dos policiais e a retirada dos índios por parte dos fazendeiros. Heroicamente as famílias que ali sobrevivem resistem a toda essa onda agressões. Uma das lideranças desabafa “Pensávamos que a escravidão tivesse acabado. Agora aqui no Passo Piraju ela está começando”. Denunciam o clima de terror a que estão submetidos, constantes tiros, cerca elétrica até a beira do rio, cana até a parta da aldeia. “Aqui polícia é insegurança pública”. Falam do medo com que se locomovem “levando a morte na mão!”. Na prisão foram torturados e dona Plácida voltou recentemente do presídio gravemente doente.

Sexta estação
Dourados tem se notabilizado nacional e internacionalmente por ser a Terra Indígena de maior população do país, em torno de 13 mil pessoas, onde tem ocorrido o maior número de mortes de crianças por desnutrição e um dos maios altos índices de suicídios e homicídios do país.
Alguns chegam a afirma que se trata de um processo acelerado de favelização. As casinhas, umas próximas às outras, não dão mais condições de sequer fazer uma pequena roça familiar. Para complicar a situação o SPI trouxe, já no século passado, várias famílias Terena, com o intuito de ensinar os Kaiowá Guarani na produção nas lavouras. O rápido aumento das violências em conseqüência do aumento de drogas, formação de gangues, trabalho escravo nas usinas, tem contribuído para que a violência tomasse um nível assustador. Em função disso estão sendo discutidas políticas de segurança na aldeia, que vão desde a preparação de contingentes policiais para atuar na área, até o toque de recolher a partir das dez horas da noite.

Sétima estação
As ameaças de despejo de sido uma constante para a comunidade de Laranjeira Nhanderu, no município de Rio Brilhante. Quando estivemos visitando a comunidade, era o dia em que expirava mais um prazo.
Falaram de tudo que tem passado nesses quase dois anos em que retornaram a seu Tekohá, terra tradicional. Duas crianças morreram em decorrência da falta de permissão da assistência à saúde, três jovens se suicidaram, sob as pressões da reintegração de posse...

Resistência e esperança, acima de tudo
Ao concluirmos a maratona de contato com as realidades de comunidades Kaiowá Guarani, fica a imagem forte dos “condenados da terra”, dos “restos”, dos quais brotará uma nova sociedade, mais justa e solidária. Povos semente de sonhos e utopias, povos da resistência, da transformação e da esperança


Egon Heck
Cimi MS
Campo Grande, 31 de agosto de 2009