sexta-feira, 28 de maio de 2010

Eterno Abraço



* Foto: Nédier Brusamolin, abaixo descrita.


Eterno abraço

Quando ele nasceu, era pequeno e feio.
Era sujo, e chorava.
Mas mesmo assim ela o abraçava,
E chorou feliz com ele em seu seio.

Quando ele não quis ir à escola sozinho,

Era pirracento, e chorava.
Mas mesmo assim ela o abraçava,
E foi com ele todo o caminho.

Quando ela partiu e ele ficou,

Já era um homem e não mais chorava.
Seguia adiante seu próprio rumo,

Tinha sua vida, tinha seu prumo.
E fingiu calado que nunca chorou,
Mas mesmo assim, ela o abraçava.
.
Autor: José Carlos Antonio
.

Meus amigos,
Esta emocionante poesia está entre as cinco finalistas do concurso de poesias Receita de Mãe do site NET Educação. O público votará on-line. Eu votei nela. Não votei porque conheço, virtualmente, o Professor José Carlos Antonio, mas porque achei que ela merece ganhar.
O Zé vai ficar furioso, mas vou pedir que vocês também votem. Endereço da votação:
http://migre.me/I59W
Um abraço,
Nédier
.........
.*Foto:
Tirada em frente à Catedral Metropolitana de Curitiba ao final da Marcha Nacional em protesto ao assassinato de Antonio Tavares, num dia 3 de maio, há 10 anos, pela Polícia Militar do Estado do Paraná por ordens do governador, na época.
Mãe exausta vinda dos fundões do Estado, alimenta seu filho. O pai está representado por uma das cruzes que foram levadas na marcha, símbolo da violência policial contra os agricultores paranaenses.

Favor difundir.

SR. DEPUTADO HÁ 7 ANOS A PEC 438
ESPERA A SUA APROVAÇÃO NESTA CASA
VOTE PELA MINHA LIBERDADE.

PEÇO QUE DIFUNDAM EM TODOS OS MEIOS POSSÍVEIS.
UM ABRAÇO,
NÉDIER

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Para meus filhos Fabrício, Ana Paula e Ricardo

A canção de qualquer mãe
.
Lya Luft
.
“ Que nossa vida , meus filhos , tecida de encontros
e desencontros , como a de todo mundo , tenha
por baixo um rio de águas generosas , um
entendimento acima das palavras e um afeto
além dos gestos – algo que só pode nascer entre
nós . Que quando eu me aproxime , meu filho ,
você não se encolha nem um milímetro com
medo de voltar a ser menino , você que já é
um homem . Que quando eu a olhe , minha
filha , você não se sinta criticada ou avaliada ,
mas simplesmente adorada , como desde o
primeiro instante .
Que , quando se lembrarem de sua infância , não
recordem os dias difíceis ( vocês nem sabiam ) ,
o trabalho cansativo , a saúde não tão boa , o
casamento numa pequena ou grande crise , os
nervos à flor da pele - aqueles dias em que , até
hoje arrependida , dei um tapa que ainda agora
dói em mim , ou disse uma palavra injusta .
Lembrem-se dos deliciosos momentos em família,
das risadas , das histórias na hora de dormir ,
do bolo que embatumou , mas que vocês
pequenos , comeram dizendo que estava
maravilhoso .
Que pensando em sua adolescência não
recordem minhas distrações , minhas imperfeições
e impropriedades , mas as caminhadas pela praia ,
o sorvete na esquina , a lição de casa na mesa
de jantar , a sensação de aconchego , sentados na
sala cada um com sua ocupação .
Que quando precisarem de mim , meus filhos ,
vocês nunca hesitem em chamar : mãe !
Seja para prender um botão de camisa , ficar
com uma criança , segurar a mão , tentar fazer
baixar a febre , socorrer com qualquer tipo de
recurso , ou apenas escutar alguma queixa ou
preocupação .
Não é preciso constrangerem-se de ser filhos
querendo mãe , só porque vocês também já
estão grisalhos , ou com filhos crescidos ,
com suas alegrias e dores , como eu tenho e
tive as minhas. Que , independendo da hora e
do lugar , a gente se sinta bem pensando no
outro . Que essa consciência faça expandir-se
a vida e o coração , na certeza de que aquela
pessoa , seja onde for , vai saber entender ;
o que não entender vai absorver ; e o que
não absorver vai enfeitar e tornar bom .
Que quando nos afastarmos isso seja sem
dilaceramento , ainda que com passageira tristeza ,
porque todos devem seguir seu caminho , mesmo
que isso signifique alguma distância : e que todo
reencontro seja de grandes abraços e boas
risadas . Esse é um tipo de amor que independe
de presença e tempo . Que quando estivermos
juntos , vocês encarem com algum bom humor e
muita naturalidade se houver raízes grisalhas no
meu cabelo , se eu começar a repetir histórias ,
e se tantas vezes só de olhar para vocês meus
olhos se encherem de lágrimas : serão apenas
de alegria porque vocês estão aí .
Que quando pareço mais cansada vocês não
tenham receio de que eu precise de mais ajuda
do que vocês podem me dar : provavelmente não
precisarei de mais apoio do que do seu carinho ,
da sua atenção natural e jamais forçada .
E , se precisar de mais que isso , não se culpem
se por vezes for difícil , ou trabalhoso ou
tedioso , se lhes causar susto ou dor :
as coisas são assim .
Que , se um dia eu começar a me confundir ,
esse eventual efeito de um longo tempo de
vida não os assuste : tentem entrar no meu
novo mundo , sem drama nem culpa , mesmo
quando se impacientarem . Toda a transformação
do nascimento à morte é um dom da natureza ,
e uma forma de crescimento .
Que em qualquer momento , meus filhos , sendo
eu qualquer mãe , de qualquer raça , credo ,
idade ou instrução , vocês possam perceber
em mim , ainda que numa cintilação breve , a
inapagável sensação de quando vocês foram
colocados pela primeira vez nos meus braços :
misto de susto , plenitude e ternura , maior e
mais importante do que todas as glórias da
arte e da ciência , mais sério do que as
tentativas dos filósofos de explicar os enigmas
da existência .
A sensação que vinha do seu cheiro , da sua
pele , de seu rostinho , e da consciência de
que ali havia , a partir de mim e desse amor ,
uma nova pessoa , com seu destino e sua vida ,
nesta bela e complicada terra. E assim sendo ,
meus filhos, vocês terão sempre me dado muito
mais do que esperei ou mereci ou imaginei ter.”

.

- Recebi este texto emocionante, formateado em pps. pela minha linda amiga Marisa Giglio. Obrigada, querida.

Nédier

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Uma foto antiga

Uma foto antiga
Um olhar antigo

A roupa, o corte de cabelo,
Antigos

E o rosto adolescente.
De minha mãe

Que mesmo envelhecida
permaneceu em frente
Ao tempo em que viveu.

Não conheci este olhar
tão triste
A não ser nesta foto já rasgada
que restou
Na sua caixa de papéis
onde guardava

O tempo que passou.

(E o tempo passa
Feito um pássaro
Cruzando o céu de maio.)

Velhas cartas amarelas
Flores secas, fotos desbotadas
Versinhos copiados
Com as letras infantis,
Feitos por mim e
minhas irmãs.

Eu me perdi em pensamentos
Enquanto tentava recuperar a foto

O que sentia esta jovem?
Que segredos revelam
Este olhar-menino?
Quais as ilusões
Que foram se perdendo
Com os dias
E ainda estão
Nesta fotografia
E que eu não posso ver?

Nédier

sábado, 8 de maio de 2010

Mamãe



Minha mãe, no dia do seu casamento, grávida de três meses. Nunca nos escondeu.
- O namoro já ia pra mais de dez anos, já estava em tempo.
Pelo que tudo indica, a decisão foi dela...
Foi ao casamento sozinha, saindo da casa de meu pai.
Sua mãe proibiu seu padrasto e seus cinco irmãos comparecerem, uma vez que a família de meu pai era de imigrantes semi-analfabetos e a dela, de professores.
...

Um dia destes eu e a minha filha Ana ficamos lembrando tudo que "herdamos" de minha mãe. Sua avó Delma.

- Os ditados que ela criava ou adaptava, normalmente chocantes.

- As atitudes temerárias, como estimular um neto a se atirar de cima de uma árvore alta.

- Declamar “A Canção do Tamoio” do Gonçalves Dias quando eu chorava de dor (ai que raiva!). Era chorar e vinha o inevitável : "não chores meu filho, não chores que a vida é luta renhida viver é lutar..." etc e tal.

- A sua lei da transferência da dor. Se seguíssemos viveríamos em estado permanente de auto-espancamento:

- Bateu a cabeça, dê uma topada que a dor vai pro pé.

- A sua indiferença à morte: - "Morreu? antes ele do que eu, pela alma dele c... eu".
Pensei que não diria quando perdeu o primeiro irmão.

Disse.

- Se reclamásse de fome, ouvíamos, para nosso profundo desespero:
- Vá à rua e mate um homem.

Era generosa, intuitiva e auto confiante.
Nunca se sentiu pobre, nem permitiu que nos sentíssemos.
Jamais desejou ter mais do que o pouco que tinha.
- Pra que? Pra sobrar?

- Não acreditava em contágio.
Quando ficou tuberculosa, dava um jeito de eu ir dormir com ela no isolamento do hospital.
Fez o mesmo quando minha irmã teve poliomielite. Escondida de todos, ela permitia que eu fosse visitar a irmã mais nova - que eu cuidava - entrando por uma portinhola no porão do hospital.

Lia muito e era culta para os padrões da época e irreverente para os padrões de qualquer época.
Feito uma criança, adorava nos dar sustos. Eu odiava e odeio sustos até hoje. Mas dividia nossa pouca comida com qualquer pedinte...todos os dias.

Irritada, atirava o que tinha nas mãos em cima do irritante, geralmente eu, que desenvolvi uma agilidade surpreendente em me desviar.

Infelizmente, eu em sempre conseguia.

Era só ter um temporal, podia ser de madrugada e ela deixava e até estimulava eu sair na chuva para brincar e me molhar. Às vezes, quando eu voltava encharcada e com frio, tinha que me enrolar em um cobertor porque não tinha roupa seca para me trocar. A sua inconseqüência maternal com nossa saúde e educação chegava a ser cômica.

Suas amigas eram eruditas ou analfabetas. Tratava todas como iguais... E não eram?

Passou anos ensinando uma cega muito pobre a fazer tricô e crochê, para o nosso desespero. A D.Eurídice para compensar a cegueira e pra ser notada
falava aos berros. Depois que aprendeu, continuou ir quase todos os dias lá em casa pra minha mãe corrigir seus trabalhos.

Nunca me ajudou nas lições de casa, às vezes esquecia até de comprar meus cadernos.

Era a professora mais amada e respeitada em todo o bairro.
Ia à casa dos alunos conferir seu comportamento e estudo.
Eu cresci sendo a filha da D. Delma, o que no meu bairro me dava status... Para o qual nunca dei a mínima.

Ela era uma mulher muito forte e diferente de tudo que se possa imaginar como mãe. Nunca me senti muito amada por ela, só hoje percebo as formas meio tortas com as quais ela demonstrava o seu amor. Sem muita atenção, sem muito carinho.

A primeira cama que tive foi ela que fez com ripas de madeira de forro. Embora meu pai fosse pintor, ela mesma pintou de cor de rosa e fez um colchão de palha. Foi uma cama linda para uma criança que já tinha uns três anos e dormia nos pés da cama dos pais.

Acho que ela me amava como amava todo mundo, não tinha isso de amar mais por que eu era filha.

Já eu, não concebia a idéia de viver sem ela. Ia todas as noites de pontas de pés no seu quarto pra ver se ela estava respirando
Quando ela adoecia eu barganhava com Deus e oferecia anos de minha vida em troca de sua recuperação.

Ela custou penosamente a morrer. Seu estado não tinha retorno, senil, vegetativa, estava necrosando em vida e permanecia respirando. Minhas irmãs diziam que a culpa era a minha e de minhas promessas em trocar minha vida pela dela. Ainda brincavam:
- Deste jeito você não vai longe, vê se desfaz os tratos com Deus. Esta mulher precisa descansar.

Era dura, com ela não tinha dengo que funcionasse.
- Estou saindo para o baile, mãe.
Eu ia com uma vizinha e sua filha de minha idade.
- Já limpou a louça e a chapa do fogão?
Claro que já tinha limpado, nem me ocorria não cumprir minha obrigação. As mãos encardidas e as unhas negras de fuligem de tanto polir a chapa do fogão com pedras e lixas, nunca afastaram meus pretendentes. Eu dançava bem.

Com integridade e dedicação ao magistério, ela me ensinou a ser íntegra e dedicada aos meus ideais.
Aprendi com ela, que não era religiosa, a amar o excluído, o miserável, o sem-nada, Aprendi também e neste assunto ela era mestra: a ter fé em mim mesma e a não ter medo de nada.

A figura que permanece até hoje em minha lembrança é a dela empunhando acima da cabeça, um peso de papel de vidro, redondo.

Sua única arma.

A qualquer ruído suspeito na madrugada, ela saia descalça para rua, com o dito peso de papel em punho. Dava voltas na nossa casa, de camisola de algodão branco até os pés. O cabelão farto, solto, escuro lhe dava um aparência de imponente justiceira em busca de um possível ladrão. Quando ela voltava ilesa, meu pai ainda estava colocando as botas.
Não sinto sua falta, ela está incorporada em mim. Libertária, corajosa e irreverente.

Nunca lhe ocorria que alguma coisa pudesse dar errado e tudo dava certo.

Minha mãe foi a pessoa que mais amei na vida.

Nédier
.
- Além de ter escrito para minha mãe e em sua homenagem, quero dedicar este texto ao Professor José Carlos Antonio que, como minha mãe dedicou, dedica sua vida ao magistério e Eliana Guimarães
de Almeida Psicóloga Clínica - que gostou do que escrevi sobre minha mãe e me inspirou a colocar os escritos neste blog.

terça-feira, 4 de maio de 2010

- Kátia, qual é a tua??

Meus amigos,
"Contra os Fatos" é um ótimo, um lúcido e imperdível artigo da Miriam Leitão. É sobre o nosso país e deveria interessar a todos. Pena que isso não aconteça.
Com todos estes quebras financeiros pelo mundo, os jornalistas deitam e rolam. Assistindo o Manhattam Conection domingo à noite, a discussão era sobre em que investir no Brasil e o que vai faltar em virtude do caos financeiro que desta vez atinge o Euro "made in" Grécia.
Um dos jornalista sintetizou:
- Comida!!
Eu pergunto, por perguntar:
- Quem ara a terra, planta, cuida, colhe os nossos alimentos?
Existem crianças que acham que tudo surge, como por milagre, na feira. Existem adultos que sabem que não é verdade e mesmo assim criminalizam o agricultor que faz com que a comida chegue a sua mesa.
O agronegócio produz mais dinheiro para o proprietário, grileiro ou latifundiário das "terras brasilis". Será que podemos sobreviver nos alimentando de papel, de títulos, ações.
Midas desejou e pediu aos deuses que tudo o que tocasse virasse ouro. Foi atendido. Descobriu que não é fácil (mas impossível) e nem salutar comer um pão fresquinho...de ouro. Talvez devêssemos pensar sobre o assunto. Leiam a matéria abaixo.
Nédier
Capa da cartilha
“A ofensiva da direita para criminalizar os movimentos sociais no Brasil"
publicação da Via Campesina Brasil.

Contra os fatos

A empresa tem que fornecer água potável para os trabalhadores.
Essa é uma das 252 normas do Ministério do Trabalho para as fazendas.
Por que escrever uma exigência óbvia?
Entre 2003 a 2008, em 451 fazendas ficou constatado que os trabalhadores não tinham acesso à água minimamente aceitável.
Há regras que não precisariam ser escritas desde o fim das senzalas.
Exemplos de regras espantosamente básicas:
- é preciso haver banheiro nos alojamentos;
- água para lavar o agrotóxico das mãos antes das refeições;
- os alojamentos têm que ser divididos por sexo;
- alojamentos de famílias não podem ser coletivos;
- trabalhador não pode pagar pelo equipamento de trabalho;
- se sofrer acidente, tem que receber primeiros socorros.
Não deveria existir instruções assim tão detalhistas.
O normal é que não houvesse.
Mas os relatórios dos grupos móveis de fiscalização, que foram a quase 1.800 fazendas desde 2003, mostram que o que deveria ser normal numa sociedade civilizada, nem sempre é oferecido ao trabalhador de certas propriedades rurais.
-Ô, Kátia, qual é a tua?
...todos sabemos e não vamos esquecer.
A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), disse à “Veja” que é impossível cumprir essa lista de 252 itens, conhecida como NR-31.
Sugeriu que o descumprimento de qualquer dessas normas levaria a empresa rural a ser enquadrada por praticar o crime.
Citou como exemplo de distorções o impedimento de que o trabalhador cuide do gado, depois das galinhas e depois limpe o pasto.
Quem acompanha o tema tem dificuldade de entender a senadora, ou de encontrar o nexo entre o que ela diz e os fatos.
- Primeiro, a Norma Regulamentadora 31 foi discutida, durante quatro anos, por uma comissão tripartite da qual a CNA participou;

- segundo, o que configura o trabalho escravo ou degradante é o artigo 149 do Código Penal e não essa instrução;

- terceiro, não há na lista nada que impeça que um trabalhador tenha várias funções na fazenda.
Até 2003, o artigo do Código Penal que condenava o trabalho análogo à escravidão era genérico, e isso favorecia as fazendas irregulares. Mas o Congresso alterou o texto — com voto contrário da então deputada Kátia Abreu.
O Código, agora, descreve quatro condutas que configuram o crime de reduzir alguém à condição análoga à de escravo: trabalho forçado; servidão por dívida; jornada exaustiva; trabalho degradante.

A senadora reclama dessas normas dizendo que elas são fruto de preconceito ideológico contra a propriedade privada.
Na verdade, não parecem ser contra o capitalismo, mas sim a favor do trabalho assalariado e, com garantias e direitos, que é da natureza do próprio capitalismo.
Não cumprir essas regras seria restituir uma ordem medieval do trabalho.Só uma minoria das empresas é encontrada com trabalho escravo, mas os casos não deixam dúvidas de que o país não está diante de uma picuinha de fiscais preconceituosos, ou de normatização compulsiva do governo.
Os flagrantes são repulsivos.
E o Ministério do Trabalho admite que só se fixa em 30% daquelas normas, as que são mais elementares.
Em 2005, a destilaria Gameleira, em Mato Grosso, foi autuada com mil trabalhadores com salários atrasados, em condições de moradia e alimentação inaceitáveis. A empresa foi autuada quatro vezes pelo mesmo crime. Não mudou de conduta, mas mudou de nome.
Em julho de 2007, 1.064 trabalhadores foram encontrados na fazenda Pagrisa, no Pará, em alojamentos superlotados, esgoto a céu aberto, salário com descontos de remédios ao preço seis vezes mais alto que nas farmácias da cidade, e água de beber “da cor de caldo de feijão”, como diz o relatório.
No dia 13 de novembro de 2007, os fiscais encontraram 820 índios trabalhando numa das sete fazendas do grupo José Pessoa de Queiroz Bisneto, em Brasilândia, Mato Grosso do Sul. Eles trabalhavam com agrotóxico e depois comiam, sob o sol, sem ter, ao menos, água para retirar o produto das mãos.
Entre várias cenas grotescas, os fiscais encontraram os trabalhadores amontoados em alojamentos mínimos. Em um deles, eram 20 pessoas em 26 metros quadrados.
Em abril de 2010, em Aragarças, Goiás, 143 cortadores de cana vindos de vários estados eram obrigados a pagar pela comida e habitação, dormiam em barracos, e foram pagos com cheques sem fundo, não tinham repouso remunerado.Ao todo, de 2003 para 2009, foram encontrados 30 mil trabalhadores em condições análogas às da escravidão nas fazendas inspecionadas. Uma minoria é autuada. Outras são simplesmente advertidas ou orientadas sobre o cumprimento da lei. Nestas, em geral a fiscalização depois encontra tudo resolvido.
A dúvida é: se não houvesse a fiscalização, elas mudariam a atitude?
No caso de J. Pessoa de Queiroz Bisneto, no dia seguinte à operação ele me contou que tinha contratado banheiros químicos para os trabalhadores, instalado local com sombra para eles almoçarem e garantiu que reformaria os alojamentos.A senadora sabe que o problema existe. Algumas dessas fazendas, como a Pagrisa, ela até visitou para prestar solidariedade aos proprietários. A melhor defesa dos produtores rurais seria separar a minoria criminosa e lutar contra essa prática.
Em vez disso, a líder ruralista ataca as exigências feitas pela fiscalização. Com ações assim, ela acabará convencendo o país que os empresários rurais são todos iguais. Se a CNA quiser falar sério sobre modernização, tem que começar desistindo de lutar no Supremo contra a lista que informa quem são as empresas criminosas.
Coluna no GLOBO:
Contra os fatos - por Miriam Leitão

sábado, 1 de maio de 2010

CPT e Dom Tomás entregam denuncia contra ruralistas no Ministerio da Justiça



A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da Conferação Nacional da Agriculura (CNA), deve estar indignada – na verdade, morrendo de inveja – do bispo Dom Tomás Balduíno, da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Kátia Abreu foi ao Ministério da Justiça entregar um “dossiê” bombástico com denúncias contra os movimentos sociais do campo, com foco no MST, no dia 13 de abril.
O tal dossiê da CNA não apresentava nada com credibilidade maior que as declarações de ódio dos ruralistas aos trabalhadores rurais sem-terra (clique
aqui e veja os documentos).






Uma senadora da República, proprietária de pelo menos 2.500 hectares de terras, líder da maior entidade de classe do agronegócio do país e pretensa candidata a vice-presidente foi obrigada a protocolar no guichê do Ministério da Justiça o seu dossiê…
Kátia Abreu (na foto) não foi recebida por nenhuma autoridade.
Que absurdo!
Circula até um
vídeo na internet sobre esse episódio, que foi uma falta de respeito com uma pessoa tão importante para o país… (indicação do leitor Carlos Cândido)
Na tarde desta quinta-feira, o bispo Dom Tomás Balduíno (à direita na foto), da CPT, foi ao mesmo Ministério da Justiça.



Tomás levou contigo dirigentes dos movimentos sociais do campo (aqueles que invadem terras, ameaçam a propriedade privada e desrespeitam o agronegócio)
Na atividade, foram recebidos pelo ministro Luiz Paulo Barreto (à esquerda na foto).
Só faltava essa!
Dom Tomás entregou ao ministro – em maõs – os 25 relatórios anuais Conflitos no Campo Brasil, publicados pela CPT desde 1985.
Entre 1985 e 2009, 63 pessoas foram assassinadas pelos ruralistas ano a ano (em média), de acordo com dados da CPT.
Os números da comissão “sobre conflitos no campo são realizadas há 25 anos e servem de referência para estudos no Brasil e no exterior” (palavras do
jornal da oligarquia rural, O Estado de S. Paulo).
Barreto recebeu também um documento com os casos de assassinatos e julgamentos entre os anos de 1985 e 2009 e uma lista com os casos de agentes de pastoral e dos movimentos sociais perseguidos e ameaçados em todo o país.
E o ministro se manifestou.
Barreto reconheceu que continua a violência do latifúndio contra os trabalhadores rurais.
“Precisamos avançar na punição dos culpados”, disse Barreto. Para ele, é preciso combater principalmente os casos de pistolagem. “Crime de encomenda é covardia!”, sentenciou.
Dom Tomás, fique esperto e muito cuidado com o olho gordo da Kátia Abreu.
Foto 1: Wenderson AraújoFoto 2: Isaac Amorim/ACS/MJ



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